Falar de turismo gay no Rio de Janeiro é falar de uma história que começou muito antes de o mercado descobrir que o público LGBTQIA+ poderia ser um importante segmento turístico. O Rio sempre teve uma característica muito particular: a capacidade de fazer com que pessoas diferentes se sentissem parte da cidade. Para muitos gays brasileiros e estrangeiros, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990, viajar para o Rio significava mais do que conhecer o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, Copacabana ou Ipanema. Significava experimentar uma sensação de liberdade.
Na década de 1990, ser gay no Rio já era, de certa maneira, algo mais visível e socialmente possível do que em muitas outras partes do Brasil. Isso não significa que não existissem preconceito e discriminação, mas havia uma atmosfera particular de tolerância e de liberdade. E, naquele momento, ainda existiam os chamados “guetos”, como eram conhecidos na época os espaços de encontro do público GLS. Esses lugares tinham uma importância enorme porque ofereciam aquilo que muitos procuravam: a possibilidade de estar entre iguais, de dançar, paquerar, fazer amigos e simplesmente ser quem se era.
Um dos maiores símbolos dessa época foi a boate Le Boy, em Copacabana. Inaugurada em 1992 pelo francês Gilles Lascar, na Rua Raul Pompeia, a casa rapidamente se transformou em um dos principais endereços da noite gay carioca.
A Le Boy não era apenas uma boate. Era um ponto de encontro de uma cidade que começava a assumir sua vocação cosmopolita. Reunia a elite do público gay carioca, visitantes de outras cidades brasileiras e turistas estrangeiros. A fama da casa ultrapassou as fronteiras do Brasil e ajudou a criar uma imagem do Rio como uma cidade onde o público gay podia sair, dançar, conhecer pessoas e viver a noite com uma liberdade que ainda não era tão comum em outros lugares.
A música era parte fundamental dessa experiência. A noite do Rio acompanhava o que havia de mais moderno na música eletrônica e na house music internacional. A pista de dança se transformava em uma espécie de território sem fronteiras, onde cariocas, brasileiros de outras cidades, europeus, americanos e visitantes de diversas partes do mundo compartilhavam a mesma experiência. A presença de personalidades internacionais e brasileiras ajudava ainda mais a construir esse imaginário de glamour. A Le Boy ficou marcada por celebridades e artistas que passaram por suas noites, tornando-se parte da memória da vida noturna de Copacabana.
E havia algo muito curioso: em frente à boate, a rua ficava cheia. O movimento ultrapassava as paredes da casa e tomava conta do entorno. Em frente a Praça Serzedelo Corrêa, tinha a Boite Encontros e também era um chamariz para gays cariocas e turistas. As ruas de Copacabana faziam parte daquela experiência. O turista que chegava não encontrava apenas uma boate; encontrava uma cena urbana.
Havia outros lugares que marcaram aquela época, como a 1140, em Jacarepaguá, e a Gaivotas, na Barra. Em Botafogo, havia também um circuito de bares e encontros que fazia parte dessa geografia noturna, com o Tamino e outros estabelecimentos que ficaram na memória de quem viveu aquele período. Eram espaços diferentes entre si, mas todos ajudavam a formar uma rede de sociabilidade que fazia do Rio um destino especialmente atraente para o público GLS.
Outro capítulo importante aconteceu nas grandes festas. A Fundição Progresso, na Lapa, tornou-se cenário de festas que ajudaram a transformar a noite carioca. A Val-Demente foi uma das pioneiras dessa cultura de grandes eventos eletrônicos no Rio, reunindo um público sofisticado, artistas, DJs e uma forte presença gay. Relatos sobre a cena clubber carioca lembram justamente como a Val-Demente ajudou a criar uma identidade própria para a noite do Rio, seguida posteriormente por festas como a B.I.T.C.H., Mona, Balaco e outras.
O icônico show de RuPaul agitou o carnaval de 1996 na Fundição Progresso. Casa lotada.
A B.I.T.C.H. ocupou um lugar especial nesse imaginário. As festas realizadas no Tivoli Parque na Lagoa e na antiga Terra Encantada, na Barra da Tijuca, transformavam os parques em um enorme espaço de diversão noturna. Para quem viveu aquele período, eram experiências que misturavam música, fantasia, liberdade e uma sensação de que novas possibilidades estavam sendo abertas.
Esse movimento foi muito importante para a libertação do público gay no Brasil. Talvez seja exagerado dizer que uma boate ou uma festa sozinha tenha libertado uma geração, mas é impossível negar que esses espaços ajudaram a criar uma cultura de visibilidade. O Rio funcionava como uma espécie de laboratório social. Pessoas que vinham de cidades onde precisavam esconder sua sexualidade encontravam aqui um ambiente no qual podiam experimentar outra forma de viver.
E essa experiência não estava limitada à noite.
Havia Ipanema.
O Posto 9, a Farme de Amoedo e toda aquela região se transformaram em uma referência internacional de liberdade e diversidade. A praia era democrática: não era necessário comprar ingresso, pertencer a um clube ou frequentar uma boate. Bastava chegar. A presença de gays, lésbicas, travestis, artistas, modelos, estrangeiros, cariocas e turistas fazia parte da paisagem.
O Carnaval ampliava tudo isso. Desde o Carnaval de rua ao Baile do Skala Gay no Leblon.
A Banda de Ipanema, criada em 1965, tornou-se uma das grandes expressões do Carnaval de rua carioca e, ao longo dos anos, passou a ser especialmente associada à presença de gays, lésbicas, drag queens e simpatizantes. O bloco, entretanto, nunca foi exclusivamente gay, e justamente essa mistura talvez seja uma das razões de sua importância: pessoas diferentes ocupavam o mesmo espaço, brincavam juntas e compartilhavam a rua. A Banda ajudou a construir uma imagem do Rio como uma cidade onde a diversidade fazia parte da festa.
É nesse ponto que cultura e turismo começam a se encontrar.
Um turista LGBTQIA+ não viaja somente para dormir em um hotel. Ele procura uma experiência. Quer saber onde ir à praia, onde jantar, qual festa acontece naquela noite, onde encontrar pessoas, quais bairros são mais acolhedores e quais lugares fazem parte da cultura local. Ele consome hospedagem, transporte, bares, restaurantes, festas, passeios, lojas e entretenimento. Por isso, o impacto econômico desse turista vai muito além do valor pago pela diária.
O turismo LGBTQIA+ movimenta uma cadeia inteira da economia.
E existe uma característica importante: muitas vezes esse turista tem maior liberdade para viajar fora das férias escolares e dos períodos tradicionais de alta temporada. Além disso, eventos específicos, festas, Carnaval, Paradas, festivais e grandes cruzeiros podem criar picos de demanda em períodos que normalmente seriam de menor movimento.
Hoje, o Rio continua atraindo esse público justamente porque a essência da cidade permanece. Ipanema, Copacabana, a praia, o Carnaval, os bares, as festas e a vida noturna continuam funcionando como uma espécie de grande convite à liberdade. A diferença é que agora existe uma indústria turística muito mais estruturada para receber esse visitante.
Um exemplo interessante dessa transformação é o misterb&b, plataforma criada especificamente para o público LGBTQIA+ e muitas vezes descrita como uma espécie de “Airbnb gay”. A plataforma conecta viajantes LGBTQIA+ a anfitriões e acomodações gay-friendly em diversos países e aposta não apenas na hospedagem, mas também na conexão entre viajantes e moradores locais.
Desde 2019, venho trabalhando com o misterb&b e percebo uma característica muito interessante desse turista, especialmente entre os europeus que chegam ao Rio. Muitos viajam sozinhos. E o que eles procuram não é necessariamente um hotel gay ou mesmo uma casa de um anfitrião gay. Muitas vezes querem um quarto na casa de um brasileiro que seja gay-friendly, alguém que possa ajudá-los a se sentir menos sozinhos e mais integrados à cidade.
Isso é muito significativo.
O turista sozinho não quer apenas uma chave e uma cama. Ele quer chegar a uma cidade desconhecida e ter alguém que diga: “Vá a este lugar”, “hoje tem esta festa”, “essa praia é melhor”, “esse restaurante é interessante”, “vamos tomar um café”. É uma forma de hospitalidade que transforma a viagem em experiência. O próprio misterb&b hoje enfatiza essa conexão entre hóspedes e moradores locais, inclusive com ferramentas para encontrar pessoas e atividades no destino.
O Rio aparece muito bem posicionado nesse mercado. Dados publicados pela própria plataforma em 2026 colocam a cidade entre os destinos importantes da rede, com concentração de hospedagens em Ipanema e Copacabana e forte presença de viajantes que fazem a viagem sozinhos.
Outro sinal de que esse mercado amadureceu é a chegada do The Tryst Ipanema, que ocupará o antigo Hotel Ipanema Plaza, na esquina da Farme de Amoedo com a Prudente de Morais. O prédio estava fechado desde 2017 e será transformado em um hotel de luxo voltado especificamente ao público LGBTQIA+, com previsão de abertura entre 2026 e 2027, conforme as atualizações publicadas sobre o projeto.
A escolha do endereço não poderia ser mais simbólica. O hotel ficará praticamente dentro do coração histórico da experiência gay de Ipanema, próximo ao Posto 9 e à Farme de Amoedo. O projeto prevê uma experiência de alto padrão, incluindo rooftop, piscina, restaurante e programação voltada ao público LGBTQIA+.
Isso mostra uma mudança importante. Nos anos 1990, o público gay procurava os espaços que existiam. Hoje, o mercado está criando produtos especificamente para esse público.
E isso nos leva a uma pergunta importante: como um pequeno hotel, pousada ou bed & breakfast pode conquistar esse turista?
A resposta não é simplesmente procurar uma operadora ou uma agência especializada. É claro que agências e operadoras continuam importantes, principalmente para grupos, eventos, cruzeiros e grandes viagens. Mas hoje o turista LGBTQIA+ pesquisa diretamente na internet, usa plataformas especializadas, Instagram, redes sociais, avaliações, aplicativos e comunidades.
Um hotel não precisa necessariamente ser “gay” para receber bem esse público. Precisa ser claramente gay-friendly.
Isso começa na comunicação. Fotografias que mostrem diversidade, linguagem inclusiva, funcionários preparados, respeito aos casais do mesmo sexo, conhecimento dos eventos e atrações LGBTQIA+ da cidade e, principalmente, uma política clara contra qualquer tipo de discriminação. O turista precisa perceber, antes mesmo de fazer a reserva, que será bem recebido.
Também é importante estar onde esse público procura.
Além das grandes plataformas de reservas, existem plataformas especializadas como o misterb&b, agências de turismo LGBTQIA+, operadores internacionais, influenciadores, redes sociais, eventos e comunidades. Um pequeno hotel pode começar de maneira simples: criar uma boa apresentação em inglês, ter funcionários preparados para atender estrangeiros, divulgar experiências locais e estabelecer parcerias com restaurantes, bares, festas e empresas de turismo.
Outro mercado interessante são os cruzeiros LGBTQIA+. Empresas como Atlantis Events e VACAYA transformaram o navio em uma espécie de grande cidade gay temporária. O conceito é simples e poderoso: durante alguns dias, todo o navio é um espaço onde o viajante pode se sentir completamente à vontade, conhecer pessoas e participar de uma programação especialmente criada para esse público. A Atlantis, por exemplo, já realiza há mais de 35 anos viagens voltadas à comunidade LGBTQIA+ e atualmente recebe mais de 20 mil passageiros por ano em suas experiências. A VACAYA também trabalha com grandes navios, pequenos cruzeiros e resorts, oferecendo experiências exclusivamente ou prioritariamente LGBTQIA+.
Essas viagens mostram outra característica importante do turismo gay: a busca por pertencimento. Muitas pessoas viajam sozinhas justamente porque sabem que encontrarão uma comunidade no destino. O navio vira uma grande festa, mas também uma oportunidade de fazer amigos, conhecer novos lugares e viajar sem precisar explicar quem são.
No fundo, é exatamente a mesma lógica que existia nas noites cariocas dos anos 1990.
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O que mudou foi o mercado. A necessidade humana continua a mesma: sentir-se livre, seguro, acolhido e pertencente.
Talvez essa seja a grande força do Rio de Janeiro como destino LGBTQIA+. A cidade não precisou inventar essa identidade. Ela foi construída ao longo de décadas por pessoas que ocuparam suas praias, suas ruas, seus bares, suas boates e seus espaços culturais. A Le Boy, a Farme de Amoedo, o Posto 9, a Banda de Ipanema, a Fundição Progresso, a Val-Demente, a B.I.T.C.H. e tantos outros lugares fazem parte dessa história.
Nos anos 1990, o Rio recebia pessoas que chegavam em busca de liberdade. Hoje, recebe também turistas que chegam sabendo exatamente o que estão procurando e que representam um mercado turístico sofisticado, conectado e economicamente relevante.
E talvez seja justamente essa a maior contribuição do turismo gay para o Rio: transformar uma história de liberdade em uma experiência turística, sem perder aquilo que tornou a cidade especial desde o começo.
Porque, para o turista LGBTQIA+, o Rio não é apenas um destino.
É uma cidade onde ele pode, por alguns dias, sentir que está em casa e ferver à vontade.
Por Alexandre Cunha - O Blog do Rio
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